dimanche 30 mars 2014

Domingologia (7)


COIN, 1994


Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.

Estaríamos, até, a falar da morte
- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.

Não abdicarei, é claro,
"dos escuros abismos do pecado"
- que em alemão se dizem doutra maneira.

Pecado, maior, é tentar traduzir a música.


Manuel de Freitas, Büchlein Für Johann Sebastian Bach,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003

samedi 22 mars 2014

"Trata-se de Poesia."




Uma das epígrafes de Olhar o Nada, Ver a Deus,
de Rui Caeiro (Averno, 2003).

mardi 18 mars 2014

Novidade





Epígrafe de Acabamentos de Primeira,
de Rui Caeiro (Eclusa 01).

mercredi 5 mars 2014

Leituras Paralelas (21)


IN A STATION OF THE METRO


The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.


EZRA POUND


*


NUMA ESTAÇÃO DO METRO


Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro
e apaixonaram-se de chofre
e seguiram-na enlouquecidos
e perderam-na para sempre
no meio da multidão.
Porque serão condenados
a vagar sem rumo pelas estações
e a prantear as canções de amor
que os músicos de rua entoam nos túneis
E talvez o amor não seja mais do que isso
uma mulher ou um homem descendo de um carro
numa qualquer estação do Metro
e que resplandece uns segundos
e se perde na noite sem nome.


ÓSCAR HAHN

dimanche 2 mars 2014

NOITE E NEVOEIRO - ALAIN RESNAIS (1955)


1.

Leni Riefenstahl não sabia de nada.

No terror dos anos trinta, quando tantos
se calavam, para sempre, seus filmes
difundiam corrupios de assassinos:
a física da morte em movimento, a festa
dos ferozes. Parada de conversos ao sublime
bebedouro das entranhas, com gorjeios
orquestrados por demente cabra-cega.

Tudo isto, recordemos, junto à fonte
do mais ímpio fedor.

Os seus filmes destruíam a realidade,
mas ela não sabia. Não saber é antegosto
dos estetas e ferrete dos pequenos.
Quem sabe, perde a fome, dorme
pouco, faz as malas. O melhor
para a saúde, realmente, é não saber.


2.

Diz-se que Jdanov puxava da caneta
sempre que ouvia a palavra “memória”:
apontava baixo e certeiro – era difícil
não lhe sorrir. Os tecnocratas,
toda a gente o sabe, têm boa pontaria.
Do Inferno sabem tudo, mas do inferno
nunca ouviram falar. Percebe-se,
evidente, que lhes dá mais jeito assim.

Estão por conta do zeitgeist, pensam
eles, e continuam. Isso lhes basta.
A vontade é o seu elemento: descem
manípulos, orientam lâmpadas, decidem
ângulos, apõem rubricas – é surpreendente
a facilidade com que gritam
“corta!”, “rua!”, “mata!”, “não!”


José Miguel Silva, Movimentos no escuro,
Lisboa: Relógio D'Água, 2005

Alain Resnais (1922-2014)