mardi 25 février 2014

Averno 065




António Barahona, Pátria Minha,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2014

samedi 8 février 2014

Leituras paralelas (20)


COME RAIN OR COME SHINE


No fundo, é isto: espera-se.
Escrevemos incuravelmente
a história dessa espera, mas
nunca se chega ao fim da rua
mais escura do passado,
nem se despe por completo o luto,
sempre outros os mortos, sempre igual a si
a morte. A espera,

essa continua. Podemos
chamar-lhe agora expectativa,
tentarmos soletrar esperança.
Só que já não queremos tanto crescer
e, sinceramente, preferimos
adiar os destinos ambicionados,
compreendendo por fim Moosbrugger, para quem
a felicidade era a distância
mais comprida entre a prisão e o tribunal.

Esforçamo-nos por vencer a dor pela
exaustão, transformá-la num bicho
que se alimente de palavras e recuse as nossas festas.
Mesmo assim, espera-se. Com
as mãos cansadas e de olhos
teimosamente postos no amor,
abrimos a janela e deixamos
a luz entrar, compassiva,
abafando a chuva que cai sem dar tempo
aos pássaros de se abrigarem. Anotamos
a palavra sinal. Ou redenção. Não interessa,
o poema não deixa de ser o mesmo.


Inês Dias, Em caso de tempestade este jardim será encerrado,
Lisboa: Tea For One, 2011