lundi 22 décembre 2014

FÉRIAS


O Paralelo W estará encerrado 
entre os dias 22 de Dezembro e 5 de Janeiro:

BOAS FESTAS



[AAVV, Merry Little Christmas, 
com capa de Inês Mateus a partir de fotografia de Bert Hardy (1948), 
Lisboa: Averno, 24 de Dezembro de 2012]

lundi 15 décembre 2014

SONETO PARA CESÁRIO


Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade.

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las.

Contava-te — sei lá! — desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas...

Duma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.


DINIS MACHADO



[Inês Dias, Rua dos Correeiros, 012]

mardi 11 novembre 2014

Leituras paralelas (24)


[...]

A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.
Em vez disso, os órgãos acomodam-se
ao suplício dos minutos, desagregam-se.
E bastarias tu – ninguém, porque
ninguém basta. É um erro – mas gostamos
tanto – pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.

[...]


Manuel de Freitas, [Sic],
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002




dimanche 2 novembre 2014

Domingologia (14)


TRINITY SUNDAY


Inadvertido, reconheces
o fio que te prende
a este ponto do tempo
e da paisagem.

Na torre de St Mary's,
em Warwick,
de onde se avistam
seis condados.

E assim chegas completo
à tua canção, forasteiro.

Sem nome, sem história.


Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia,
com capa de Daniela Gomes e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira,
Lisboa: Averno, 2005




[Fotografia: ID, 'God is in the details', Londres 014]

lundi 8 septembre 2014

CONVITE x2

No próximo Domingo:



[Às 17h]



[Às 18h]

Averno #72



Inês Dias, Da Capo [2011-2014],
com capa de Luis Manuel Gaspar, fotografias de Mafalda Capela e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa: Averno, 2014

[128 páginas / 250 exemplares]


mercredi 27 août 2014

MARGARIDA FERRA


NOME COMUM: JASMIM-DOS-POETAS


Percorria ao anoitecer os jardins
da cidade à procura das flores
oficiais - sobem amparadas
e perfumam com a memória
do chá as ruas irregulares.
Levava uma tesoura de unhas,
insuficiente e desnecessária porque
não colhia nada que fosse vivo.
Restavam-lhe frases livres,
páginas dobradas, cadeiras desiguais
e os pratos vazios deixados
aos gatos.

O primeiro poema encontrei-o
numa dessas buscas
debaixo da árvore maior,
no ferro que sustenta a copa,
preso com uma mola de roupa.


- in Curso Intensivo de Jardinagem,
com capa de Luís Henriques, Lisboa: & etc, 2010




dimanche 17 août 2014

Domingologia (12)


E tu, meu amor, não digas
o que se passa comigo.
Deixa o trânsito passar
com paciência e esse ar
de quem passeia ao domingo
e me ouve assobiar.


RUY CINATTI

RUY CINATTI - poemas inéditos em livro




CORPO SANTO - uma antologia de folhas volantes,
sel. e pref. de Manuel de Freitas,
capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2014

vendredi 8 août 2014

JORGE AGUIAR OLIVEIRA


RAIVA SURDA


um pó metálico
é o que há para engolir
além da dança azul
nas tuas palavras
quando falas de derrotas

porto de abrigo
é um umbigo indígena
ofuscando a luz da sombra
viagem genuína sem lupa
nem telescópio

uma veia do pescoço cortada
outra no pulso dança
até se tornar
                    o lodo do deserto

se queres matar
                         fá-lo aqui
no rodapé desta página 
há bichos esfomeados


in Manicómio,
Coimbra, DSO, 2014

mardi 29 juillet 2014

Paralelo W #7




Rui Pires Cabral, Oh! Lusitania,
Lisboa: Paralelo W, 2014
[150 exemplares]

Paralelo W #6



Gil de Carvalho, Amazonas e Cia,
com arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Paralelo W, 2014
[Tiragem de 150 exemplares, numerados e assinados] 

Edições Paralelo W




Disponíveis:

- Rui Caeiro, Travessa dos Remolares 
e
- Rui Pires Cabral, Broken.

Paralelo W #5



Paralelo W #4




Rui Caeiro, Travessa dos Remolares,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Paralelo W, 2013
[150 exemplares, numerados e assinados]

Paralelo W #3




Manuel de Freitas, Pontas do Mar,
com fotografias de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Paralelo W, 2013
[150 exemplares - numerados e assinados]

Paralelo W #2



Rui Pires Cabral, Broken,
com arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Paralelo W, 2013
[150 exemplares, numerados e assinados]



Paralelo W #1




Marta Chaves, Pedra de Lume,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Paralelo W, 2013
[150 exemplares, numerados e assinados]

lundi 28 juillet 2014

FÉRIAS




O Paralelo W estará encerrado para férias
entre 25 de Julho e 25 de Agosto. 

dimanche 13 juillet 2014

Domingologia (11)




Isabel Nogueira e Paulo Furtado, A Kind of Blue,
Lisboa: Alambique, 2014

lundi 7 juillet 2014

Novidade




Miguel Martins, Cotão,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: & etc, 2014

dimanche 6 juillet 2014

Averno 068




Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2014
[Tiragem única de 250 exemplares]

dimanche 8 juin 2014

Domingologia (10)


Houve em tempos, 2 séculos atrás, um muro chamado Muro do Derrete.
Que em 2 domingos consecutivos acontecia na feira das Mercês.
Quando não havia feira,  decerto nele poisariam pardais e dormitariam gatos.

[Continua aqui...]

dimanche 1 juin 2014

Domingologia (9)





A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
[Isabel Nogueira, 67, Rue Greneta
Lisboa: Artefacto, 2014]


Para apresentar este livro da Isabel, começaria por aquilo a que ela chama, logo no primeiro texto, a “pergunta inicial”: “E lá voltamos à pergunta inicial. Por que partimos? E foi neste ponto que os argumentos se esgotaram. À excepção de um. O mais importante: porque tem de ser.” (p.10) 
Se substituirmos o “partimos” por escrevemos, temos já aqui o princípio de uma espécie de poética: Por que escrevemos? Porque tem de ser. 


*


Este é o argumento “mais importante”, mas não o único. Há poucas semanas, na Culturgest, Rosa Maria Martelo apresentou uma comunicação intitulada “Devagar, a poesia”, em que identifica uma tendência que, a seu ver, marca a actual poesia portuguesa. Trata-se de uma aposta na desaceleração, na lentidão, por reacção à velocidade cada vez mais desumanizante dos nossos tempos. 
Parece-me que tal é visível, por exemplo, no bucolismo esclarecido de José Miguel Silva em Serém, 24 de Março (Averno, 2011); nos dois últimos livros de Adília Lopes, sintomaticamente intitulados Apanhar Ar (Assírio & Alvim, 2010) e Andar a Pé (Averno, 2013), por de certo modo proporem uma nova respiração, uma nova passada; ou ainda no muito recente Autocataclismos, de Alberto Pimenta (Pianola, 2014), em que um dos poemas nos apresenta mesmo um ciclista que cai e se volta a levantar para continuar caminho, não no “sentido único” de Benjamin (convocado no livro que agora apresentamos), mas – e cito – “no sentido contrário”. 

Creio, contudo, que também podemos identificar esta tendência fora da poesia, sobretudo em livros de carácter mais híbrido, como é o caso de 67, Rue Greneta. Esta desaceleração encontra-se presente, sobretudo, no modo como a Isabel, nos seus textos, cristaliza pequenos instantes de modo a permitir-se/-nos pensá-los, transformá-los em espera (aberta) e não apenas em acção (fechada). O mais importante – e isto fica dito logo desde o primeiro texto – não são as chegadas, mas as suspensões e a consequente transformação que estas deambulações permitem; um pouco como para Moosbrugger, uma personagem de Musil em O Homem Sem Qualidades, a liberdade era o trajecto repetido entre a prisão e o tribunal. Daí a referência a moradas muito precisas (a do próprio título); a um lugar certo na Biblioteca (o P29, título inclusivamente de um dos textos); ou a um local, por definição, de paragem, como o cemitério do Père-Lachaise, a propósito do qual se pode justamente ler: “Um belo cemitério é um excelente local para descansar enquanto vivo. E para ficar pasmado, que também é preciso.” (p.16)

Mesmo quando em andamento, a figura emblemática deste ritmo alternativo – desta quase inversão de marcha – é a do próprio flâneur, que Isabel recupera num dos seus textos e que também podemos encontrar, aplicada à criação literária, em Jean Cocteau. E cito, a este propósito, uma breve passagem do seu discurso de 1956, em Oxford: “Qualquer obra bela é escrita à mão e resulta de uma longa espera. Qualquer percurso belo na vida se faz a pé, ao ritmo de Goethe entre Weimar e Roma. Mas a pressa dá a volta às cabeças quentes. A juventude (…) cansa-se da estrada nacional. Desencoraja-se, ao ser ultrapassada por grandes carros que a salpicam de luz e de lama. Cede e pede esmola. Entrega-se à pantomina da boleia moral, que não é mais do que uma maneira desenvolta de estender a mão e de mendigar um pouco de velocidade e de luxo."1 

Uso, aliás, o termo andamento, pois este pertence também ao domínio da música e não é por acaso que, ao longo das páginas do livro da Isabel, vamos escutando Dead Can Dance, Beach House, tango, etc..


*


Um último aspecto que gostaria de destacar é o léxico positivo, quase solar, deste livro, em que os textos traçam justamente um arco do Outono à Primavera. Refiro-me a palavras como alegria, ternura, acreditar ou revelação (cf. p.38). 
Antes de mais, a revelação física das próprias imagens (fotografias anónimas) que compõem este livro. Mas também as revelações resultantes do diálogo que se estabelece entre essas imagens e os textos que as vão reenquadrando, recriando – na escrita da Isabel, como depois na escrita de quem as vê e lê, já despidas de uma identidade ou temporalidade mais específicas, abrindo-se assim uma série de passeios paralelos

Em tempo de profunda crise, que deixa naturalmente as suas marcas nestes textos, não é menos importante esta ressalva da alegria, feita por diversas vezes. Em tempo de obsceno apelo governamental à emigração, não é menos importante o pequeno gesto de resistência de terminar um livro, apelando, pelo contrário, ao regresso: “No fundo, todos esperamos chegar a casa, onde quer que seja, e encontrar sempre a chave debaixo do tapete.” (p.40)



Inês Dias
Lisboa, 31 de Maio de 2014



Tanta coisa por dizer, sel. e trad. Inês Dias, Lisboa: Língua Morta, 2012.

dimanche 18 mai 2014

'I want to ride my bike' (1)


[...]

Devia ser Domingo pelo silêncio da cidade
E Primavera por causa das andorinhas
Com suas danças fazedoras de casas e de filhos.

Havia a consciência de gastar um copo de água
E da germinação das flores
Na mesa da cozinha.

[...]


Rui Pedro Gonçalves, Um rapaz à procura da sua idade,
Coimbra, Do Lado Esquerdo, 2014



jeudi 1 mai 2014

Leituras paralelas (23)


LANTERNA SURDA


A minha solidão envolta em recusas. O vazio sobre o qual cai uma cascata repugnante. O juiz de toga vermelha que existe em mim e me condena à morte. Esta espuma de inquietação à beira dos dentes. Esta bola na garganta. Este peito em que se acumulam tempestades que nunca rebentam. Esta estrada branca que me paralisa. Os homens livres que circulam por ela. Este rio de homens livres em volta da minha prisão. Todos estes palhaços que abanam a cabeça de um lado para o outro, e dizem "não". E o meu riso no escuro. Este riso que cega a minha lanterna surda.


Jean Cocteau
in Tanta Coisa Por Dizer, sel. e trad. Inês Dias,
Lisboa, Língua Morta, 2012




LANTERNA SURDA


Os ausentes sopram e a noite é densa. A noite tem a cor
das pálpebras do morto.
Toda a noite faço a noite. Toda a noite escrevo. Palavra
a palavra eu escrevo a noite.


Alejandra Pizarnik
versões de Maria Sousa, Coimbra, Do lado esquerdo, 2014

samedi 26 avril 2014

Leituras paralelas (22)


SOMBRA


Estou sentado de frente para as coisas, com livros
de história da arte, tão velhos, a preto e branco,
e a tempestade a mover-se mais depressa que o esperado. 
Não sejam as cores alegres, mas antes tristes
e graves, que por onde a sombra passa tudo cobre.

É uma sensação medonha ver fechar a porta grande,
perceber logo na pele os estilhaços que provêm
do vazio, mais pesados do que o ar, inodoros, sem sabor.
De repente a chuva pára. Vê-se um fiozinho de luz
e a cidade a ir comer à sua mão.


- VÍTOR NOGUEIRA


*


AOS AMIGOS


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


- HERBERTO HELDER

mercredi 23 avril 2014

Novidade




Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Alambique, 2014

lundi 21 avril 2014

Novidade




Vítor Nogueira, Segunda Voz,
com capa de Daniela Gomes e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2014.

BENFICA


'Já tenho dado prémios.' Vem aí o cauteleiro
que parece ter apenas um motivo para sorrir.
Fica-lhe bem o vermelho. Mas,
para além do Benfica, haverá outra maneira
de esquecer que a vida anda esfregada
a pedra-pomes, que o progresso é uma ideia
materializada unicamente através
de uma enorme nascida no pescoço?

Um pregão a sofrer com dignidade,
como quem cultiva um jardim de nervos.
A terapia é para aqueles que têm tempo
e dinheiro para criar problemas. 'Boa sorte
para todos. Não se metam em sarilhos.'
Poderemos realmente desistir a qualquer altura,
sem quaisquer obrigações?

Devagar, olhar em frente, mão no leme,
quem evita compromissos sabe dar valor às coisas.
Lá vai ele, rua abaixo, ardendo calmamente
como o cigarro que cravou, à falta de melhor negócio.
'Já tenho dado prémios' - uma história predilecta
conta-se sempre da mesma maneira.
A vida, já se sabe, é um desconsolo.
E, como se não bastasse, fumar mata.


Vítor Nogueira, Comércio Tradicional,
Lisboa, Averno, 2008

vendredi 11 avril 2014

Férias


O Paralelo W estará fechado, por motivo de férias, 
entre os dias 17 (5.ª feira) e 21 de abril (2.ª feira).



dimanche 6 avril 2014

Domingologia (8)


Ó DOMINGO RADIOSO DE SOL E CLAMORES


Atravesso a quaresma em paz
Enquanto nevoeiro seco e tormentas
Agonizam o mundo
Meu irmão longínquo

Não estou doente
Vou num sossego
Do lado bom do diabo
Ter com o bando à clareira

Comprei drogas baratas na farmácia
E na Feira do Leite
Os adeptos fazem juras de amor ao clube
Até à morte com urina e abraços

Gosto do domingo
Andar aos peidos
Não produzir
Como deus
Descansam os trabalhadores ao domingo


João Almeida, As Condições Locais,
Guimarães, Opera Omnia, 2014

dimanche 30 mars 2014

Domingologia (7)


COIN, 1994


Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.

Estaríamos, até, a falar da morte
- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.

Não abdicarei, é claro,
"dos escuros abismos do pecado"
- que em alemão se dizem doutra maneira.

Pecado, maior, é tentar traduzir a música.


Manuel de Freitas, Büchlein Für Johann Sebastian Bach,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003

samedi 22 mars 2014

"Trata-se de Poesia."




Uma das epígrafes de Olhar o Nada, Ver a Deus,
de Rui Caeiro (Averno, 2003).

mardi 18 mars 2014

Novidade





Epígrafe de Acabamentos de Primeira,
de Rui Caeiro (Eclusa 01).

mercredi 5 mars 2014

Leituras Paralelas (21)


IN A STATION OF THE METRO


The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.


EZRA POUND


*


NUMA ESTAÇÃO DO METRO


Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro
e apaixonaram-se de chofre
e seguiram-na enlouquecidos
e perderam-na para sempre
no meio da multidão.
Porque serão condenados
a vagar sem rumo pelas estações
e a prantear as canções de amor
que os músicos de rua entoam nos túneis
E talvez o amor não seja mais do que isso
uma mulher ou um homem descendo de um carro
numa qualquer estação do Metro
e que resplandece uns segundos
e se perde na noite sem nome.


ÓSCAR HAHN

dimanche 2 mars 2014

NOITE E NEVOEIRO - ALAIN RESNAIS (1955)


1.

Leni Riefenstahl não sabia de nada.

No terror dos anos trinta, quando tantos
se calavam, para sempre, seus filmes
difundiam corrupios de assassinos:
a física da morte em movimento, a festa
dos ferozes. Parada de conversos ao sublime
bebedouro das entranhas, com gorjeios
orquestrados por demente cabra-cega.

Tudo isto, recordemos, junto à fonte
do mais ímpio fedor.

Os seus filmes destruíam a realidade,
mas ela não sabia. Não saber é antegosto
dos estetas e ferrete dos pequenos.
Quem sabe, perde a fome, dorme
pouco, faz as malas. O melhor
para a saúde, realmente, é não saber.


2.

Diz-se que Jdanov puxava da caneta
sempre que ouvia a palavra “memória”:
apontava baixo e certeiro – era difícil
não lhe sorrir. Os tecnocratas,
toda a gente o sabe, têm boa pontaria.
Do Inferno sabem tudo, mas do inferno
nunca ouviram falar. Percebe-se,
evidente, que lhes dá mais jeito assim.

Estão por conta do zeitgeist, pensam
eles, e continuam. Isso lhes basta.
A vontade é o seu elemento: descem
manípulos, orientam lâmpadas, decidem
ângulos, apõem rubricas – é surpreendente
a facilidade com que gritam
“corta!”, “rua!”, “mata!”, “não!”


José Miguel Silva, Movimentos no escuro,
Lisboa: Relógio D'Água, 2005

Alain Resnais (1922-2014)



mardi 25 février 2014

Averno 065




António Barahona, Pátria Minha,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2014

samedi 8 février 2014

Leituras paralelas (20)


COME RAIN OR COME SHINE


No fundo, é isto: espera-se.
Escrevemos incuravelmente
a história dessa espera, mas
nunca se chega ao fim da rua
mais escura do passado,
nem se despe por completo o luto,
sempre outros os mortos, sempre igual a si
a morte. A espera,

essa continua. Podemos
chamar-lhe agora expectativa,
tentarmos soletrar esperança.
Só que já não queremos tanto crescer
e, sinceramente, preferimos
adiar os destinos ambicionados,
compreendendo por fim Moosbrugger, para quem
a felicidade era a distância
mais comprida entre a prisão e o tribunal.

Esforçamo-nos por vencer a dor pela
exaustão, transformá-la num bicho
que se alimente de palavras e recuse as nossas festas.
Mesmo assim, espera-se. Com
as mãos cansadas e de olhos
teimosamente postos no amor,
abrimos a janela e deixamos
a luz entrar, compassiva,
abafando a chuva que cai sem dar tempo
aos pássaros de se abrigarem. Anotamos
a palavra sinal. Ou redenção. Não interessa,
o poema não deixa de ser o mesmo.


Inês Dias, Em caso de tempestade este jardim será encerrado,
Lisboa: Tea For One, 2011



jeudi 30 janvier 2014

Leituras paralelas (19)


Não há amor ilegítimo.


Vicente Huidobro, Mágica,
trad. Ricardo Marques, 
Lisboa: Língua Morta, 2011


*


PARÁBOLA


Não há amores malditos

Há poder leis hábitos
erro espanto astúcia
impotências normas mentira
angústia domesticação comércio
cobardia e calamidade

Não há amores malditos


Félix Grande, 1937 - 30/01/2014
[Trad. Inês Dias]

EM EXPOSIÇÃO:



dimanche 26 janvier 2014

4 ORDENS DE FUZILAMENTO


I.


Encostámos uma garrafa de cerveja
a um muro

Vendámos-lhe os olhos

Apontámos os fuzis

À ordem de disparar
fuzilámo-la.

Do cadáver da garrafa de cerveja
escorria um líquido amarelo sanguinolento
das veias do vidro.



II.


Apontem-se canhões nucleares
ao firmamento

Fuzilem-se as estrelas.



III.


Encostem-se as montanhas
e os rios
os planaltos, os vales
e as planícies
a um muro de tijolo
e cal

vendam-se-lhes os olhos

fuzilem-se.



IV.


Os juízes perguntaram-lhe:
- Queres a morte ou a eternidade?
Ele respondeu:
- Acredito na morte.
Os juízes fuzilaram-no.

O ranger das canas
O gemido das flores

O uivo dos Móveis
A tristeza dos Relógios
As lágrimas das Cadeiras.



João Damasceno, Retrato do artista quando jovem aos pés da Rainha Santa Isabel
Lisboa, ed. Fenda, 1989

mardi 7 janvier 2014

Leituras paralelas (18)


Quando o Inverno começa nas mãos
quentes e sujas um cheiro a laranjas
arde no ar como coisa que chora
ao sol calmo da festa.


- SANDRO PENNA
[Trad. de Maria Jorge Vilar de Figueiredo]





EPISTROPHÉ


O cheiro a laranja nas gotas de frio,
sob o sol do inverno.

O sabor da terra ao levantar-me.


- ABRAHAM GRAGERA
[Trad. e fotografia de Inês Dias]