dimanche 27 octobre 2013

Domingologia (5)


"Que tristeza. O dia levanta-se. Retida pelo sono e pelo sonho, ainda penso que posso viver sem ter que satisfazer as minhas necessidades imediatas. Mas é domingo, dia em que a nostalgia começa ao entardecer, quando sei que amanhã devo levantar-me em perfeita contradição com o tempo. O tempo assusta-se, talvez, eu vou desempenhar o meu papel de mulher que trabalha. […] Se não fosse a imposição do trabalho, muito raramente estaria com outras pessoas, e só em condições especiais. Cada um devia partir para seu lado e canto, durante anos de solidão, ou seja, durante o tempo necessário de fazer outros tipos de conhecimento. É preciso ter outras relações, as relações entre os homens são de matéria plástica, opaca, violenta. O olho vê apenas outro olho; o dente esbarra com outro doente.
Mas hoje ainda é domingo, ainda é manhã escura em que poderei continuar a ser terna com quem está aqui na casa, sem necessária aparência de homem, e com raro espírito de ver."


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

Aucun commentaire:

Enregistrer un commentaire