lundi 16 septembre 2013

Leituras paralelas (16)


SEIS SUÍTES


Durante muito tempo quase me arrependi
de não ter comprado uma versão mais limpa,
mais moderna,
das Seis Suítes de Bach para violoncelo solo
(Yo-Yo Ma, por exemplo, tão brilhante).

Hoje, quando vibram duras, misteriosas,
as cordas e as mãos de Pau Casals, na sua velha 
gravação dos anos trinta, Paris e Londres,
sei, com certeza, que o rumor abafado, 
os pequenos estalidos, o volume
um tanto desigual desta música distante,
são o eco mais fiel,
o som mais claro, o hino quebrado,
de uma paisagem que adoece dentro do coração.


Ángel Mendoza,
in Criatura n.º6, trad. Inês Dias,
Lisboa,  Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011



*



SUÍTE NÚMERO SEIS


É um grande incómodo não saber tocar 
violoncelo que o pranto seria doutra 
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado - a dor 
em arco - ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda - se nunca lhe achei 
o préstimo - que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.


António Gregório, American Scientist,
Vila Nova de Famalição, Quasi, 2007

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