vendredi 27 septembre 2013

Tiragem especial



Adília Lopes, Andar a pé
com capa e ilustrações de Bárbara Assis Pacheco,
Lisboa, Averno, 2013

[Tiragem especial de 25 exemplares, numerados e assinados.]

dimanche 22 septembre 2013

Domingologia (3)


Porque é que as segundas têm de
estrangular os domingos;
e o outono, o verão;
e o tempo adulto, o tempo mais jovem?
Sob os jardins,
morreram outros jardins.
Atrás do sol,
outros sóis sucumbem,
como roupas velhas num armário.
Ele já não faz perguntas:
apaixonou-se por uma música.


ALAIN BOSQUET
[Trad. Inês Dias]

jeudi 19 septembre 2013

Oferecem-se postais no Paralelo W:


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO

I.

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.




WALLACE STEVENS
[Trad. e fotografia Inês Dias - 1/13]

lundi 16 septembre 2013

Leituras paralelas (17)



PARA UM CÃO



Estiveste connosco onze anos.
Uma noite voltámos:
estavas estendido frente ao portão,
o focinho no pó da estrada,
as patas já frias, o dorso
quente ainda.
Agora estás todo
nesta cova que te abrimos.
Mas os onze anos
da tua humilde vida,
o gemer
sempre que alguém partia,
o sofrer de alegria
sempre que alguém regressava
- e à noitinha
se alguém
por uma tristeza sua
chorava
tu lambias-lhe as mãos:
olhavas para ele
e lambias-lhe as mãos -
oh, esses onze anos
do teu mudo amor
está tudo aqui
sob esta terra
sob esta chuva
cruel?
Agonizavas
na gravilha húmida:
levantaste ainda
uma pata - que tremia.
Agora ninguém te protege
do frio.
Já não te podemos chamar.
Já não te podemos dar
nada.
Só as folhas mortas
caem neste recanto
do relvado.
Pensar que algo mais resta
de ti
é impossível:
e por isso a nossa absurda
dor aumenta.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
Lisboa: Averno, 2012



*


AINDA


Ainda falamos de ti como se continuasses a ser
a mordedura de fogo que incendiará a tarde,
o latido absorvido pela relva
húmida e jovem do amanhecer,
certa maneira de felicidade
reservada apenas às crianças e a alguns animais.

Sussurrando o teu nome, o verão volta a falar,
embora doa e as nuvens pareçam chumbo,
embora se crave o frio no nosso coração
(como as tuas dentadas, mas sem inocência),
e o inverno nos trate como cães de ninguém.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º6, trad. Inês Dias,
Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011

Leituras paralelas (16)


SEIS SUÍTES


Durante muito tempo quase me arrependi
de não ter comprado uma versão mais limpa,
mais moderna,
das Seis Suítes de Bach para violoncelo solo
(Yo-Yo Ma, por exemplo, tão brilhante).

Hoje, quando vibram duras, misteriosas,
as cordas e as mãos de Pau Casals, na sua velha 
gravação dos anos trinta, Paris e Londres,
sei, com certeza, que o rumor abafado, 
os pequenos estalidos, o volume
um tanto desigual desta música distante,
são o eco mais fiel,
o som mais claro, o hino quebrado,
de uma paisagem que adoece dentro do coração.


Ángel Mendoza,
in Criatura n.º6, trad. Inês Dias,
Lisboa,  Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011



*



SUÍTE NÚMERO SEIS


É um grande incómodo não saber tocar 
violoncelo que o pranto seria doutra 
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado - a dor 
em arco - ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda - se nunca lhe achei 
o préstimo - que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.


António Gregório, American Scientist,
Vila Nova de Famalição, Quasi, 2007

jeudi 12 septembre 2013

Manuel de Castro, 1934 - 12 de Setembro de 1971


LENDO UMA REFERÊNCIA À MORTE DE MANUEL DE CASTRO, 
NO "DIÁRIO" DE PALMA-FERREIRA


Por acaso descubro que este jovem poeta
morreu. Jovem? Já não o seria,
mas é assim que o vejo daquele tempo
em que ele era já protestatário
e ser protestatário não era ainda maneira
de triunfar na vida. Não faço ideia alguma,
e nada importa, que terá escrito ou dito
de mim nestes anos de não saber mais dele.
Nem nada sei das voltas que lhe deu a vida.
Suponho que morreu de doença, de desordem,
miséria talvez, raivosa fúria dia a dia traída
mesmo na roda habitual à mesa de café,
onde um falso calor dar-lhe-ia sobrevida.
Tem sido sempre assim por estas décadas:
morrem os melhores sem bem realizar-se,
e sobra quem se realiza nos cadáveres
que vivos não salvou. E sobram, são os chefes,
têm corte, amantes que lhes pagam ou eles pagam,
e críticos de artigo semanal em coro de louvor.
E aqueles são quem morre – de tudo e de estar vivo,
e servirão de lacrimejo luso
até já nem valerem para ser lembrados
pelos que mereciam ser esquecidos.
E quem não esteja lá, se limpo de assassino,
só pode recordar os olhos do poeta,
a boca retorcida de amargura à espreita,
e os gestos sacudidos com que não falava
senão de alguma esperança e de poesia.


Jorge de Sena, Conheço o sal… e outros poemas, 1974

vendredi 6 septembre 2013

SHIRLEY ANN EALES

Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo – mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville – um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira – e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.


Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia,
Lisboa: Averno, 2005