mardi 27 août 2013

JEJUANDO


Às vezes convém desprendermo-nos,
tirarmos da boca o mais particular.
Negarmos o apetite afirma-nos.
Perdermos a sorte,
                              desalojarmo-nos,
sairmos de casa por um fogo
que limpe de impurezas a nossa casa.

Deixarmo-nos ir, em ondas,
declinar quem somos e quem fomos.
Às vezes ajuda-nos renunciar
às nossas certezas, proceder
afiando,
             libertando-nos
das nossas ilusões.
                             A moderação
de estar entre as coisas sem desejo,
para desejar estar entre as coisas.

Às vezes o vazio
em que parece que flutuamos
é o mais absoluto que nos preenche.
Muitas vezes convém ser mendigo
da nossa realidade,
                              ficar em jejum 
do que mais amamos e nos ama.
Ficar de lado,
                      vendo-nos passar,
dando-nos a esmola de não darmos
outra esmola senão a de continuar vivos.

Convém endurecer,

                               calejar as subtilezas.
E regressar ao mundo, vorazes,
com novas ânsias. 


Carlos Marzal, Ánima Mía,
Barcelona: Tusquets, 2009

[Trad. Inês Dias]

lundi 26 août 2013

Regresso de férias




O Paralelo W regressa de férias já amanhã (3ª feira)
no horário habitual (14h-20h).

samedi 24 août 2013

Leituras paralelas (15)


nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só seu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio


Herberto Helder, Servidões,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2013


*




Ernesto Sampaio, As Coisas Naturais,
Lisboa: Averno, 2013

lundi 5 août 2013

Leituras paralelas (14)







AAVV, Nós, Os Desconhecidos
org. Daniela Gomes e Rui Pires Cabral,
Lisboa: Averno, 2012

dimanche 4 août 2013

Domingologia (2)

SEGURANÇA


Uma última volta pelas divisões.
Confirmo se está tudo fechado,
se não há a remota possibilidade
de alguém conseguir pelo lado de fora
nem que seja pequena nesga de
luz. Repito seis vezes a operação.
Depois é domingo. O domingo,
di-lo o dicionário dos símbolos,
é o dia da responsabilidade
e da cultura, dos que enchem as ruas
com o seu vazio fecundo. Dia de
descanso e de periferias,
de gente que se entrega aos círculos
obsessivos da fúria, como se a
sobrevivência, de sexta a segunda,
fosse acima de tudo uma espera
com fuga, o sonho de grandes encontros
onde todos são amigos. Interrompo
o descanso, suado, aflito
e verifico novamente se tudo
permanece fechado, seguro.


Carlos Bessa, Em Partes Iguais,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004