vendredi 28 juin 2013

FERNANDO GUERREIRO




A acidez dos instrumentos -
ou a letra miúda, de que se
serve para debruar a ouro
o interior dos músculos -
permite-lhe retomar o ofício
opaco que para si, com o tempo,
se tornou a poesia. Se dela
se acercasse, lhe medisse
os membros - a distância
que vai do cóccix à nuca -
talvez descobrisse o número
que, uma vez repetido
(les enfants sont morts
de tant regarder les brumes),
lhe devolvesse o mundo
em que tudo acontece
no rombo que, ao cair,
em si produzem os sentidos.
mas talvez fosse preferível
não escrever, partir à aventura...
Sobre a mesa, o coração,
já com alguns meses,
atraía a si os ventos,
movidos por pássaros
esquecidos um dia
de ter morrido.
Vento desossado,
como o sentimento...
Sim, o mundo acabara -
o poema sabe-o .
e dele só restam palavras
a que os espectros se abrigam,
para repetir gestos
que as paredes devolvem
já exauridos (outro diria
limpos) de todo o sentido.


in Telhados de Vidro  n.9, 
capa dupla de José Francisco Azevedo,
Lisboa: Averno, Novembro 2008 




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