jeudi 4 avril 2013

Leituras paralelas (13)


Contra este Emporium das luzes que se vem alevantando – das luzes animadas, das luzes ecrãs-espelho: baças, vazas, vazias. Contra isto tudo: a sombra! Não a que faz o animatógrafo ou o teatro chinês, que essa ainda anima, essa está ainda ao serviço da distracção, do lúdico que o império propaga. Mas a outra, aquela que o animal escolhe para se recolher, para ter as suas crias, a sua criação; a que ajuda a lanterna de Diogenes a aluminar a procura; a que faz do farol guia para passar ao largo; a que faz a árvore dar cogumelos.

A intolerância que este mundo mostra ter às sombras está cada vez mais patente, é feita coisa para a ocupação de não estar desocupado. Novas mentes luminosas trazem-nos um mundo de led’s , de i-touch’s, de manos sem las manos,  de smart’s mas só nos phones e nos carros.

Quereis a maçã do conhecimento? Tomai a imagem marca com a trinca da Eva! É branca, dá luz, meus Narcísicos num Gold mundo! Vamos ver o mundo por um tubo! Allez, que este já vai pró You Tubo! Nada apaga mais do que a luz e é essa que é preciso desfocar. Andam a defecar às claras! Borra-se tudo menos as lâmpadas que nos podiam dar um pouco de penumbrea – que penúria!

No desassombro, tudo é irrisão, e tudo é feito para irradiar. Já não é risível sequer. A piada esgotou, a piada… nem por piedade. Smile (dois pontos parêntesis direito). Cá o «je» que se habituou a carregar só nas vogais de Deus carrega o seu smart phode e inclina-se mais para as reticências.

Os outros? Que inferno! O outro, é na busca do outrora que o acho, e onde as mentes brilhantes só vão buscar o retro e ipsis recto sai um brilhante novo! À volta, estes outros, e isto é o perigo, me parecem cada vez mais iguais uns aos outros. Os vossos apetrechos que dão luzes para vos compensar a falta de uma aura, é a nova aurora – ó-fusca! É o revólver de Goering que sem a sombra da dúvida impera e gora.

Por que nos fazem esquecer que estamos dentro do sol e fazemos a sombra?

Por que é que este tempo não quer verbo que não seja o presente mais-que-perfeito?

O Presente não existe! O presente, é um participo passante!…







"Como erguer um contraponto à economia que se tornou geral, aos interesses que ela multiplica, sem incorrer na perseguição imediata ou na fome?
Como fazer valer a força de três ou quatro contra o império de todos?
Estes três ou quatro escondem-se; fundam sociedades secretas frágeis; são forçados a fingir partilhar os costumes joviais e os gestos agressivos dos bárbaros; exibem-se nas suas cidades, nos seus templos, nos seus anfiteatros. Mas no canto, ou seja, in angulo, ou seja, ao abrigo da sombra, secretamente, passam uns aos outros, como se fossem fotografias pornográficas, em vez de folhetos sectários, ou publicitários, ou nacionais (ou seja, em vez de notas do banco), obras publicadas em nove exemplares, ou recordações de livros, ou reprografias dos próprios livros antigos que, entre todas as mercadorias, não mercadejam nada.
Estas página fotocopiadas e cizentas, imagens sem imagens, furam o tempo.”


Pascal Quignard, As Sombras Errantes – último reino
trad. de Maria Piedade Ferreira, 
Lisboa: Gótica, 2003

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