vendredi 15 mars 2013

Leituras paralelas (10)

Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos O livro do sapateiro, 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima proposição e se estende sequencialmente em poemas lhanos, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante. Poesia «redondinha»? Longe disso: laborioso olhar sobre laborioso quotidiano.
 
 



Aqui deixo os cinco primeiros poemas e o último (49.º):
 
 
La eternidad está en las cosas
del tiempo, que son formas presurosas
 
JORGE LUIS BORGES


1.

Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo


2.

Mordeu a vida a pele da minha mão direita.
Na mão direita que segura o ferro
e assim julgava dominar o tempo,
devagar, mas depressa, como não existindo,
entrou incendiado um sopro do destino
sobre o qual aqui me tenho acocorado.


3.

Sentado no curto escabelo que me deram
espreito aqui da cave pela janela alta
as pessoas que passam.
Passam passam deixo de vê-las
enquanto ergo e baixo a ferramenta.
Continuo sentado no escabelo que me deram
e no escuro desta cave estou acompanhado.
Sim, acompanhado
não por quem passa
mas por quem não passa.


4.

Há um rio e o outro lado do rio.
Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho
e sem saber ao certo
se o que entra é a cor de um certo tempo antigo
ou o licor de um outro tempo novo.
E verifico então de olhos molhados
que não há que saber
nem distinções na paisagem
— que é uma só no largo coração.


5.

Estar aqui é como não estar aqui.
No escuro onde as minhas lentas mãos modelam
a pele deste ser vivo,
o universo,
é da fina camada que cobriu
o seu vasto percurso
no largo da pastagem,
é no táctil roçar da sua vida
que uma luz, é esta!, me transporta.
(…)


49.

Vejo-me no brilho que te dou,
ó espelho das minhas mãos,
fugaz vitória destes dias
últimos.



 

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