mardi 12 mars 2013

Leituras paralelas (8)


A minha sugestão é o livro “O Mel” de Tonino Guerra, poeta que deveria estar bem mais editado em Portugal.
A edição é de 2004 e pertence à Assírio & Alvim. Sendo a tradução da responsabilidade de Mário Rui de Oliveira. Este livro marcou tanto a minha vida que, unicamente, o que tenho a dizer sobre o mesmo é representado na fotografia que concebi para homenagear a obra e reflectir o deslumbramento que me causou. É também o livro que mais ofereci a amigos ou aconselhei a leitura.

 
 
 
 
 
 
 
A introdução de Mário Rui de Oliveira sobre os 36 cantos que compõem esta obra:

 

O rumor da folhas que caem

 

Deste livro de Tonino Guerra, que o leitor tem entre mãos, Italo Calvino escreveu: «O Mel é um livro que se tornará mais belo cada ano que passar e daqui a cem anos muitos aprenderão romagnolo para ler no original a jornada dos dois velhos irmãos». O Mel foi publicado em 1981, pela Maggioli, uma editora quase clandestina de Rimini, em dialecto romagnolo acompanhado de uma versão em Italiano.
                A Rudeza de carácter dos dois irmãos é, certamente, mais nítida nas formas dialectais do que na compostura de uma língua corrente, distanciada do mundo arcaico e seus segredos, que a todo o momento fogem. Já os gregos diziam «o ser ama esconder-se».
                O próprio Tonino Guerra propôs que se elaborasse a tradução portuguesa a partir do romagnolo, emprestando para isso memórias, propostas, esclarecimentos, correcções, tudo o que foi determinante para este projecto. Recordo que o canto Vinte e Quatro, por exemplo, «encomendado» por Fellini par o filme Casanova, valeu muitos telefonemas para Portugal na obstinada busca de uma palavra, «quase dialectal», que adensasse o carácter misterioso do poema. Dos quatro ou cinco termos apresentados, quis ser Tonino a escolher. Ou como a sua emoção inesquecível ao retomar o Canto Dezasseis, soletrado no filme de Tarkovskij, Nostalghia, me pareceram um desses tantos sinais que testemunham a generosidade e o entusiasmo que empregou nesta colaboração.
                O livro não é autobiográfico, mas é difícil não encontrar nele o fantasma de um tal Tonino Guerra, que abandonou Roma (depois de trinta anos naquele andar do Piazzale Clodio) e partiu para os confins da campesina Emilia Romagna, onde Dino, seu irmão mais velho, habitou até à sua morte, ocorrida já em 2003.
                Creio que lendo O Mel se percebe que Tonino Guerra nos faz ouvir o rumor das folhas que caem.
 



CANTO NONO (CANTÈDA NÓV) *

 

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada

pelas raízes das ervas

chegou à biblioteca banhando as palavras santas

guardadas no convento.

 

Quando tornou o bom tempo,

Sajat-Novà o frade mais jovem

levou os livros todos por uma escada até ao telhado

e abriu-os ao sol para que o ar quente

enxugasse o papel molhado.

 

Um mês de boa estação passou

e o frade de joelhos no claustro

esperava dos livros um sinal de vida.

Uma manhã finalmente as páginas começaram

a ondular ligeiras no sopro do vento

parecia que tinha chegado um enxame aos telhados

e ele chorava porque os livros falavam.
 


*Neste poema Tonino Guerra refere-se ao poeta Sajat-Novà
 e ao sublime filme de Sergei Paradjanov de 1968 “A Cor da Romã”.





Daniel Curval

 

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