jeudi 7 mars 2013

Leituras paralelas (4)


O dia de amanhã, de Ignacio Martínez de Pisón,  tem como protagonista Justo Gil, um informador da Polícia Política nos últimos anos do franquismo. A sua história, a dum emigrante pobre e sem escrúpulos que acaba por se tornar delator, é contada por doze personagens que, em momentos diferentes, se cruzaram com ele. Justo Gil, mais do que um homem como tantos outros, é uma metáfora angustiante do que foram os terríveis anos dum regime moribundo, em que o medo, as traições mas também a luta pela liberdade marcaram decisivamente a vida de todos os espanhóis.
 
 
 
 
"E, numa dessas tardes, vi-a, diz Eliseu Ruiz. Uma tarde, vi a Teresa em frente dum colégio da rua San Antonio María Claret. Estava na hora de saída e havia muitas mães à espera. Se a vi, foi provavelmente porque de uma forma inconsciente andava à procura dela. Como explicar senão assim que, de todas as vezes que me cruzava com uma mulher da mesma altura e aspecto, ficasse a observá-la com a secreta esperança de que fosse ela, a Teresa? As crianças começaram a sair, em grande algazarra. Agora que a encontrara, não conseguia afastar-me dali. Precisava de continuar a vê-la, precisava de perceber em que é que estava diferente, sete anos depois da última vez, e de ver como abraçava o filho e como se comportava quando supunha que ninguém a olhava. Eu estava na esquina, meio escondido atrás dum marco de correio, e ao ver que a Teresa e o filho vinham na minha direcção puxei a gola do casaco e virei-me para o outro lado. A Teresa passou a menos de dois metros de mim, e eu inspirei com força para captar o cheiro dela. Apesar de, naquele momento, me ter conseguido conter, senti que alguma coisa se desencadeava dentro de mim. Quando não pensava em nada, pensava na Teresa. Talvez nunca mais voltasse a estar com ela, mesmo assim precisava absolutamente de saber da sua vida. Descobri que já não vivia na rua Escorial, mas que continuava no mesmo emprego. Que tirara a carta de condução e tinha um Seat 600 cinza. Que o marido se chamava Ramiro e o filho David… Imaginava-os como uma família alegre e feliz, e essa alegria e essa felicidade impunham-me tanto ou mais respeito do que as normas de segurança do partido. Quem era eu para me imiscuir naquelas vidas?"
 
 
Maria Manuel Viana
 

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