mercredi 6 mars 2013

Leituras paralelas (3)



São de O Tempo, Esse Grande Escultor as citações que envio,
do ensaio "Em memória de Diotima Jeanne de Vietinghoff",
ao longo do qual Marguerite Yourcenar vai citando Jeanne de Vietinghoff:


“Para quê fazer da vida um dever se ela pode ser um sorriso?

[…]

Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste porventura a voz da consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues; olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo... É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.
Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser.

[…]

É preciso ter esgotado a dor antes de atingir a hora tranquila que precede a nova aurora.

[…]

Nós é que não estamos prontos. Os objectos da nossa felicidade existem há dias, anos, talvez séculos; esperam que a luz se faça em nossos olhos para os vermos, e que o vigor cegue aos nossos
braços para os agarrarmos. Eles esperam e espantam-se de há tanto tempo ali estarem inúteis.
Sofremos (dizia ela ainda), sofremos de cada vez que duvidamos de alguém ou de qualquer coisa, mas o nosso sofrimento transforma-se em alegria logo que apreendemos, nessa pessoa ou nessa coisa, a beleza imortal que nos fazia amá-la.

[…]

Não o que se vê, o que se diz, o que se pensa, mas a implacável união que, para além de todas as coisas conscientes, une a minha alegria à tua alegria naquilo que nas nossas almas é indizível.
Não as promessas, os beijos, as carícias, mas o acordo do ritmo no universal fluir...”


Jeanne von Vietinghoff (1875-1926)


Diz depois Yourcenar sobre J. de Vietinghoff:


"Sempre duvidou de que o homem tivesse que vir a responder por aquilo a que se chama os seus pecados. Para ela, eles eram como estilhaços de mármore, inevitável lixo que se acumula em volta de uma obra de arte por acabar, no atelier de um escultor…"



Helena Nilo

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