samedi 23 mars 2013

Leituras paralelas (12)

O JARDIM


Havia, tinha de haver, um jardim.

Os ruídos do trânsito rodopiavam, mas era um espaço
para que os cidadãos se refrescassem,
observado de cima pelo palácio.

Atrás, a Polícia ocupava cantos de
sentinela de brincar - deve ter havido
briefings, e-mails, pessoas com uma palavra a dizer.

Mais para além, porém, alguns pais ajudavam os filhos
a lançar barcos numa lagoa tocada a vento, para os trazer depois
de volta, a porto seguro, com uma longa vara.

"É - um poeta escreveu - a coisa mais próxima
ao idílio que merecemos; autorizam-nos
mais uma vez a entrar no Éden como de direito."

Muitos dos que vieram para a cidade foram 
ficando pelo jardim; bebiam café,
vislumbravam sentidos no horizonte vago, organizado.

Um dia, os avisos apareceram: "O jardim
foi encerrado, avisa-se que é proibida
a entrada sob pena de incorrer numa coima."

E depois, noutro dia outra mensagem dizia:
"por ordem dos abaixo-assinados (cujos nomes
incluem aqueles que percorrem outros lugares, estando mortos)

o jardim foi, tinha de ser, destruído."


MICHAEL O'NEILL
[Trad. Ricardo Marques]





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