dimanche 3 mars 2013

Leituras paralelas (1)


DA FINITUDE



Para o João e a Vina



“A minha impressão é a de que nada foi, tudo está sendo; agora vivos, posso olhar de cima, ou do exterior; acordo e verifico que sobre o dia de hoje já passaram cem anos, e desço uma oitava, ou várias, no tom de descrevê-lo […] Sim, as coisas são veículo de conhecimento, à medida que se dispõem experimentam o nosso pensamento e submetem à prova a nossa maneira de agir; disponho-as de certa maneira e já outras percepções surgem, mudo-as de lugar, estabeleço entre elas outras recíprocas relações, e já novos seres estão presentes e começam a exprimir-se (a mim) para que eu não os abandone, os descreva, os mantenha, os reforce na sua realidade nascente; quando tudo por mim for abandonado (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.”

Maria Gabriela Llansol, Finita
Assírio e Alvim, 2005, p. 220 
[Rolim, 1987]






Tive o prazer e o privilégio de privar com a Gabriela nos últimos anos da sua vida – minha vizinha em Sintra, fui-me tornando vizinho do seu mundo em horas de conversas e trocas várias, de idas e vindas da casa da saudação, e em outros territórios circundantes que ainda hoje percorro. Finita, se não bastasse já por si como marco incontornável da infinitude do encontro inesperado do diverso que esta escrita convoca, marca, na minha biografia, o começo dos trabalhos. Como a própria deixou tatuado na porta de entrada do meu exemplar - “Chegada do Ricardo à Casa da Saudação. Chega bem____”.

Não deixa de ser irónico para mim que ao fim de alguns anos, em outro acaso do tempo, num momento em que a legência ocorre ainda mais textual e diversa, com a morte do corpo físico e, ele sim, verdadeiramente finito, uma solicitação me traga pontualmente para junto de Finita, e em particular para uma das minhas citações preferidas. Este é o ano em que começo uma nova década na minha vida. E leio a frescura desse verde óleo de escrita que era o de Llansol, confessado e praticado nestas páginas, com a mesma pujança da minha primeira leitura, “como se a mão fosse coração e cabeça ao mesmo tempo.”

É, e certamente será sempre, um dos livros fundamentais da minha vida. A minha (in)finitude passa também por aqui.



Ricardo Marques
Londres, 3 de Março de 2013

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