samedi 9 mars 2013

CAFÉ EUROPA

A última coisa que me apetece saber,
esta noite, é quem terá contribuído
mais para a dignificação do continente
que se prestou ao rapto de ser nome de café.

As molduras electivas, na parede
que agora nos encima, dificilmente
coincidiriam com as minhas escolhas,
caso tivesse mesmo de escolher.
É o azar relativo de preferir Cioran
a Freud ou Rothko a Mondrian,
contrapondo a tudo um imenso nada.

Lembrar-me-ei, porém, da voz displicente
que fazia no WC a análise sociológica
da Dinamarca (cheguei a pensar que se
tratasse de poesia) e da mulher que encostava
ao balcão os seios, caindo sobre um gin tónico
onde se consubstanciava a ideia física de amor.

Eu sei que há "extensões da alma" perfeitas
e irredutíveis. Mas apenas tive direito a uma caixa
de fósforos, datada de 1989 e muito pequena.


Manuel de Freitas, Brynt Kobolt,
Lisboa: Averno, 2008

Aucun commentaire:

Enregistrer un commentaire