lundi 16 septembre 2013

Leituras paralelas (17)



PARA UM CÃO



Estiveste connosco onze anos.
Uma noite voltámos:
estavas estendido frente ao portão,
o focinho no pó da estrada,
as patas já frias, o dorso
quente ainda.
Agora estás todo
nesta cova que te abrimos.
Mas os onze anos
da tua humilde vida,
o gemer
sempre que alguém partia,
o sofrer de alegria
sempre que alguém regressava
- e à noitinha
se alguém
por uma tristeza sua
chorava
tu lambias-lhe as mãos:
olhavas para ele
e lambias-lhe as mãos -
oh, esses onze anos
do teu mudo amor
está tudo aqui
sob esta terra
sob esta chuva
cruel?
Agonizavas
na gravilha húmida:
levantaste ainda
uma pata - que tremia.
Agora ninguém te protege
do frio.
Já não te podemos chamar.
Já não te podemos dar
nada.
Só as folhas mortas
caem neste recanto
do relvado.
Pensar que algo mais resta
de ti
é impossível:
e por isso a nossa absurda
dor aumenta.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
Lisboa: Averno, 2012



*


AINDA


Ainda falamos de ti como se continuasses a ser
a mordedura de fogo que incendiará a tarde,
o latido absorvido pela relva
húmida e jovem do amanhecer,
certa maneira de felicidade
reservada apenas às crianças e a alguns animais.

Sussurrando o teu nome, o verão volta a falar,
embora doa e as nuvens pareçam chumbo,
embora se crave o frio no nosso coração
(como as tuas dentadas, mas sem inocência),
e o inverno nos trate como cães de ninguém.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º6, trad. Inês Dias,
Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011

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