lundi 21 janvier 2013

COM O PÉ NO ACELERADOR


O vulcão do paraíso expele vendas de ouropel.
São os últimos dias do crescimento económico,
essa mecânica utopia burguesa, os conselheiros
deitam água na fervura do melhor e o futuro
retrocede tão depressa que se instala no passado.

Custa-me dizê-lo, mas Descartes estava errado:
não há nada no mundo mais bem distribuído
do que a estupidez. O que nos leva, fatalmente,
à conclusão de que as catástrofes políticas
ocorrem por motivos puramente naturais.

Com isto uma pessoa aborrece-se, claro,
e já não sabe o que fazer com o acervo de ovos
que em tempos esbulhou na sonhadora capoeira
anarco-cristã, dividido entre uma fome de cão
e a súbita repulsa por gemadas exemplares.

Resultado: pomo-nos a conjurar uma patética
fuga para o interior, onde a lixo-dependência
menos pesa e nos podemos dar ao luxo de ser
pobres. Assim, vira-se à esquerda na nacional 1,
depois de novo à esquerda e por fim à direita.

Chegamos. A casa é a última da rua, que não tem,
naturalmente, saída. Abaixo disto não há mais nada,
apenas um fecundo lameiro de silvas e um rio
sossegado, que não lembra a brevidade da vida
e onde nem um suicida se consegue molhar.

Sem descendência, nem vocação para sofrer
de borla, vou antes tratar (como é que se diz?)
do meu jardim, solicitado por narcisos, malmequeres,
amores-perfeitos - em suma. florinhas amorais.
Então adeus. E boa sorte. Qualquer coisa, telefonem.


José Miguel Silva, Serém, 24 de Março,
Lisboa: Averno, 2011




[John Chillingworth, 1949]

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