mardi 29 janvier 2013

FRITZ


Primeira manhã:
demos-lhe banho,
nome de leite,
nosso lugar.

Corria depois,
secundava,
flecha feliz
no alvo de deus.

Um osso é um osso,
parecia dizer,
há que escondê-lo
de dias piores.

O curso da vida
que juntos fizemos
deixou-me na margem
mais desabrida.

Um dia morreu-nos
a juventude,
mudou-se o veloz
em terra batida.

Alma de gente,
que fazes agora,
que osso procuras
tão longe de casa?



José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui,
Lisboa: &etc, 2002

vendredi 25 janvier 2013

Inaugura hoje (6ªf), às 22h, a exposição PEDRAS E ARGILAS, de Pilar Andaluz


PEDRAS E ARGILAS


para a Pilar Andaluz



Pedras e argilas, reconstrução do olhar
pousado em superfícies e cavidades,
portas desalmadas, horizontes de tijolo,
païsagens de pedreiras devastadas.
     
A morte marca a sua presença
em desequilíbrio cantante; a vida
renasce à distância percorrida
até beijar o amante, que sou eu.
   
Fico ao teu lado na fotografia,
muito perto do céu.


António Barahona
25.I.013

mercredi 23 janvier 2013

NÃO IMPRECISO, INCOMPLETO


Sentado à mesa,
parto o pão com as mãos

e a toalha
enche-se de migalhas,
como se algo nesse gesto escapasse ao próprio gesto.

Há sempre perda:
                            até mesmo agora
uma parte de mim não me pertence.

Lá fora
também se esfarela o dia:

cada floco de neve é uma trégua.



Josep M. Rodríguez, A Caixa Negra
trad. Manuel de Freitas, Lisboa: Averno, 2009

Esta 6ªf, às 22h: INAUGURAÇÃO



lundi 21 janvier 2013

COM O PÉ NO ACELERADOR


O vulcão do paraíso expele vendas de ouropel.
São os últimos dias do crescimento económico,
essa mecânica utopia burguesa, os conselheiros
deitam água na fervura do melhor e o futuro
retrocede tão depressa que se instala no passado.

Custa-me dizê-lo, mas Descartes estava errado:
não há nada no mundo mais bem distribuído
do que a estupidez. O que nos leva, fatalmente,
à conclusão de que as catástrofes políticas
ocorrem por motivos puramente naturais.

Com isto uma pessoa aborrece-se, claro,
e já não sabe o que fazer com o acervo de ovos
que em tempos esbulhou na sonhadora capoeira
anarco-cristã, dividido entre uma fome de cão
e a súbita repulsa por gemadas exemplares.

Resultado: pomo-nos a conjurar uma patética
fuga para o interior, onde a lixo-dependência
menos pesa e nos podemos dar ao luxo de ser
pobres. Assim, vira-se à esquerda na nacional 1,
depois de novo à esquerda e por fim à direita.

Chegamos. A casa é a última da rua, que não tem,
naturalmente, saída. Abaixo disto não há mais nada,
apenas um fecundo lameiro de silvas e um rio
sossegado, que não lembra a brevidade da vida
e onde nem um suicida se consegue molhar.

Sem descendência, nem vocação para sofrer
de borla, vou antes tratar (como é que se diz?)
do meu jardim, solicitado por narcisos, malmequeres,
amores-perfeitos - em suma. florinhas amorais.
Então adeus. E boa sorte. Qualquer coisa, telefonem.


José Miguel Silva, Serém, 24 de Março,
Lisboa: Averno, 2011




[John Chillingworth, 1949]

samedi 19 janvier 2013

Hoje (sábado), às 22h, Nuno Moura lê NUNO MOURA:

[...]


6.
Apanhou um táxi e disse, – um desastre quanto é?


[...]


16.
Duas voltas na chave.

O que será que a mulher sente
por lhe abrir a porta todas as noites?

Uma certa viragem para ela
dos sentimentos do trinco?


[...]


24.
Um homem sai à rua.

Estranha que a mercearia tenha portas com abertura
automática de segurança.

Repara que os pássaros que voam por são bento
vêm equipados com vista desarmada.


[...]


38.
Diz-se às vezes da poesia
o que o matreco diz
de uma mão sem pulso. 


[...]


61.
Na janela terceiro esquerdo estranho,
um homem vê televisão muito tempo seguido.

A um momento parece-lhe ouvir alguém sair.

Sabia que não vivia sozinho.
Portanto, se nada se tivesse passado com o hamster,
devia ter sido
a sua mulher. 


"Histórias muito pequenas e muito más"
in Os Livros de Hélice Fronteira, Regina Neri, Vasquinho Dasse, Ivo Longolmel, Adraar Bous, Robes Rosa, Estevão Corte e Alexandre Singleton, Lisboa: Mariposa Azual, 2000


mercredi 16 janvier 2013

Este sábado (dia 19)...

...às 22h, 
Nuno Moura lê NUNO MOURA:





é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ebêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.
portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

In Nova asmática portuguesa, 
Lisboa: Mariposa Azual, 1998

Chegou esta semana (2):


2.


Essa mulher transporta o cântaro,
agora pesado de água e sacode os
cabelos que se entranham na rodilha.
Há ali um ritual entre o seu corpo
e o barro _________

uma memória
de sobrevivência, um pacto com as
ruas. O cão não a deixa, encosta-se-lhe
às pernas como se pertencesse aos seus
vestidos. Por vezes pára e urina contra
as casas. É a terceira vez que a mulher
se senta na fonte e olha cuidadosamente para torneira.



Jaime Rocha, Mulher inclinada com cântaro,
Nazaré: volta d'mar, 2012

Chegou esta semana (1):



Rui Caeiro, Rui Pires Cabral, Rui Pedro Gonçalves, Rui Miguel Ribeiro e Rui Azevedo Ribeiro, Ruindade, 50 KG


lundi 14 janvier 2013

José Carlos Soares, no Paralelo W:



Agora somos o campo
e as linhas que o cercam
tecidas pelo eco
de um prado adormecido.

Agora - sempre o soubemos -
há um jardim fechado, um pássaro
caindo
no escuro nó do sofrimento.


in Do Lado de Fora,
Lisboa: 50 KG, 2012



§



Havia a tristeza
como método, havia
a sedução

como razão. Havia
o tempo, a língua
pegajosa do sentido
marcando em cada ruga

o desenlace. O sol
também havia
até que passe.



in O Visitante Paralelo,
Lisboa: Língua Morta, 2013

jeudi 10 janvier 2013

CORTINA


Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.

Vítor Nogueira, Bagagem de Mão,
Lisboa: &etc, 2007
 

mercredi 9 janvier 2013

No dia 19 de Janeiro (sábado)...

 ...às 22h, 
NUNO MOURA lerá poemas seus no Paralelo W. 


Como o autor há muito profetizou, a solução para a crise passa necessariamente pela poesia:


dar um preço
a cada poema.

numa saída de fábrica
trocá-los por olhares sem tempo.

jeudi 3 janvier 2013

Estamos de volta ao Paralelo W...


PEQUENO RELATO DO ANO NOVO

A luz da lâmpada é uma pedra que bate contra as águas tranquilas da página que lê. Um círculo alcança a madeira escura da janela para desenhar com o seu giz um arabesco. Há-de preparar um pratito com doze uvas, mas ainda tem tempo. Uma manta de lã cobre no sofá as suas pernas. No gira-discos soa um piano distante, como uma litania dos bosques. Deveria jantar algo, talvez. Uma profunda calma chega da rua e invade-o por inteiro. De repente, um petardo, uma gritaria geral, carros que buzinam. Outro ano. Continua a ler. 




mardi 1 janvier 2013

ENVIO



Vai livrinho e deseja a todos
Flores no jardim, bem-estar a rodos,
Um pichel de vinho, uma pitada de talento,
Uma casa rodeada de relva ao vento,
Um rio ali ao lado sussurrante,
Um rouxinol no sicômoro trinante.



Robert Louis Stevenson
(versão portuguesa de João Rodrigues)