dimanche 23 décembre 2012

O NATAL - SCHERZO

 
Boas notícias. Cientistas estão em vias
de sintetizar o princípio do Natal,
criar uma espécie de reforço vitamínico
para a bonomia sazonal.
      
A droga actua sobre os centros nervosos
onde se crê que reside a aptidão
para gerar ódio, malquerença e egoísmo,
e faz de cada homem um irmão.
     
Tem um contra: só actua em Dezembro.
No resto do ano é inócua, não alcança.
Mas talvez seja melhor assim:
que diabo, ser sempre bonzinho também cansa.
      
De futuro, um mês antes, já se podem ingerir
pílulas de Natal após as refeições,
de forma que, quando o dito por fim chegue,
estejam repletos de Natal os corações.
     
Quer dizer: está ao nosso alcance
interagir pela química com o calendário.
Passarmos a tratar o espírito do Natal
como se fosse uma gripe ao contrário.
       
Mas muitos torcem o nariz e dizem
que a droga é no fundo uma espécie de vacina
- e nada mais do que isso -
contra o medo de ver o fundo da latrina
 
 
 
A. M. Pires Cabral
in Merry Christmas, Lisboa: Averno, 2006
 

Hoje, domingo...

o Paralelo W está aberto entre as 14h e as 20h.

Depois encerra para férias 
e só reabre a 3 de Janeiro do novo ano. 




samedi 22 décembre 2012

Hoje à noite:


Paralelo W,  22 de Dezembro de 2012, 22h

na noite apócrifa do lançamento de 
Merry Little Christmas (Averno 053)
Diogo Dória lerá poemas de Natal. 



[Foto daqui]

vendredi 21 décembre 2012

Hoje à tarde (18h):

Leitura de poemas 
de FERNANDO ASSIS PACHECO
por NUNO MOURA


LÍRICA DE PARDILHÓ


Então acordo e sinto a meu lado
o esplendor tranquilo
da amada que respira
adormecida deitada sobre o flanco
vertendo a prata dum sorriso

nas ravinas da noite
esferas cantam a alegria
é um sítio de grama rociada

e passam horas
durante as que da rua
ouvindo vozes turvas
eu ficarei teimando
na claridade a todo o preço

de que me falam as aves


- Fernando Assis Pacheco

jeudi 20 décembre 2012

OXFORD STREET, ESQUINA COM ORCHARD STREET: A GAITA DE BEIÇOS



Se chegássemos à alegria por uma escada de incêndio
tu arranjarias maneira de descer tocando
a música modesta sempre a mesma
que em Setembro na tua cadeira de rodas
se a alegria: duas três frases curtas
sopradas ao passante (e o cabelo
encardido (a sujidade do pobre vista à luz
se arranjasses maneira: um belo salto
cheio de swing

acaso vou agora até ao fim dos meus anos
lembrar-te como estavas
sentado de través tocando com brio
dissimulado à esquina: isto em Setembro
sob o oiro de um sol que bate forte
a música nos beiços (qualquer coisa
de rarefeito e por aí
tão brutalmente alegre - diria comovente (1)

se a alegria: o que chamamos alegria
com o pudor da meia idade
tu aqui tocando por alguns peniques
duas três frases muito curtas
os pombos que baixam da cornija
os autocarros (sopradas como exemplo

se então houvesse um fogo em todos nós
e a tua boca (o sebo no casaco: arranjarias
maneira de levar-nos os que já
não ouvem nem se falam nem
(alegre; sujo e alegre
inquietante neste mundo
onde comemos até o coração


(1) - que esperar da Europa?/ as ruas pardas/ desidratam a imaginação/ o século XXI devia ser amanhã



Fernando Assis Pacheco

mercredi 19 décembre 2012

Leitura de poemas

de

Fernando Assis Pacheco 

por

Nuno Moura


Paralelo W, sexta-feira, 21 de Dezembro, 18h.

mardi 18 décembre 2012


Convoco a luz para o lugar
da morte. Tu vibras numa vertical
do deserto, em plena velocidade
fracturada. Há nuvens de pontos
na dobra da visão, nenhum limite.
Exposto como um ferimento, que soberania
exerces no vazio? Assim se arruinaram
as arquitecturas: armadilhar a casa
ficar preso dentro de uma sala.
Fechar uma parede para abrir uma janela.



Carlos Poças Falcão,  Arte nenhuma (poesia 1987-2012),
Guimarães: Opera Omnia, 2012

samedi 15 décembre 2012

CANÇÃO



"triste como um rio, sereno como as pontes..."



fio d'água transparente
balança de luz
na noite que se alarga
serena como um rio
serena como as pontes

estátua que conduz
o cintilar do negro
na noite que se alarga
serena como um rio
serena como as pontes

o gato que se enrola
a limitar o brilho
que identifica o negro
que a noite percorre
sereno como um rio
sereno como as pontes

palácio que esqueci
teu corpo já estrangeiro
no nome tão distante
felino ainda na noite

triste como um rio
sereno como as pontes


Manuel de Castro, A Estrela Rutilante,
ed. do autor

lundi 10 décembre 2012

"O mundo está escuro: ilumina-o."

Leitura de poemas
por Marta Chaves e Inês Dias,
esta 6ªf (dia 14), pelas 22h.


samedi 8 décembre 2012

FERIADO: novo horário e leitura

Hoje é feriado, mas o Paralelo W vai estar aberto tarde (14h-20h) e noite (22h-00h).

Pelas 22h, Abel Neves lerá poemas seus.



O QUE PENSAS QUANDO OLHAS PARA MIM E NÃO DIZES NADA



Há um jardim com anões de barro quando não falas
mas isto sou eu a dizer e posso enganar-me e     aliás
para que serve o que digo?
Estás a pensar na chuva que há-de cair só nas tuas mãos
nas minhas     que me importa?
É a chuva?     Pensas nela enquanto olhas
para mim   Que mundo é este?   Fala
diz qualquer coisa
ou deixa que assim seja por todos os séculos
ou eu ou a chuva
muito bem     não podes decidir
É um prazer saber-e    Amen


Abel Neves, Eis o amor     a fome e a morte,
Lisboa: Cotovia, 1998

Editoras / Publicações disponíveis

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Relógio D'Água
Revista Grisu
Revista Intervalo
Tea For One
Teatro de Vila Real
Vendaval

Edições de autor

...

jeudi 6 décembre 2012

ABEL NEVES


PRIMEIRAS NEVES


muitíssimas vezes     na impossibilidade de dizer as boas palavras
numa composição que possa seduzir quem nos ouve
procuramos refúgio na escrita
aqui temos abrigo
acendemos o lume e acrescentamos o que podemos à evolução dos
                                                                                              mundos
os lábios      que poderiam estar activos no acto da fala
são uma fronteira entre a alma e as cinzas
lá fora     as primeiras neves
In Deitar a Língua de Fora,
Lisboa: Língua Morta, 2012



mardi 4 décembre 2012

Esta 6ªf...

pelas 18h, Paulo da Costa Domingos lê poemas do seu novo livro:
Versos Abrasileirados (&Etc, 2012)
ESTADOS GERAIS
A palmada nas costas
acompanha a rodada paga;
o obrigado-meu-povo
com a sacanada feita;
o desencarceramento dentre
chapa em harmónio;
as harmonias entrecortadas
pela brusquidão de serras;
os prefácios, as badanas
e os tumultos das massas;
agulhas nas virilhas
para uma ligação via satélite.
Uma côdea dura no ânus
concita o sorriso partidário;
a macaca caída das árvores
durante a última ceia;
o burro que ri no hemi-
ciclo e a vaca na palha;
a santa aliança divorciada
da sagrada família.

PAISAGEM

Da varanda, o cerro de oliveiras desce
a curva da muralha
num castanho desbotado de Arraiolos. Ao rés
da casa, azinheiras despertam na superfície da
terra, raízes, emaranhado de seiva
 
o guizalhar do gado no pastoreio, além
e depois Pavia - na distância, hei-de voltar
voo poisado
neste irrepetível instante
de negra e branca pêga. No seu palrar quebrado
 
está a dizer-me: Identificas Portugal
com qualquer sombra de rosto, folha caída,
desfazer de onda. Nem sequer pensas
no pouco exacto que és - coisa alguma, já
ninguém é Portugal.
 
Agora
desceu a noite
na cor da pedra
sob a lua nova de julho
inerte
o redondo castelo
não há nada a dizer
quando se vai directo
à porta da traição.
 
 
João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

samedi 1 décembre 2012

PALAVRAS COM ÁGUA


A chuva gosta de escrever. Sobre o vidro das janelas, na carroçaria dos automóveis imprime as suas obras. E quando cai sobre um papel ouve-se o ruído de prazer com que o pisa. Sabe traçar uma fenda na superfície, como fazia a velha tipografia, depois arredonda-a. E, sobretudo, se houver algo de escrito, desbota-o até o apagar. O que a chuva escreve prevalece sobre qualquer tinta. E no dia seguinte, quando o papel tiver secado, ficam gravados os seus sinais, uma iconografia quase cuneiforme que é secreta e que é também para sempre. 


José Ángel Cilleruelo