mercredi 31 octobre 2012

CEMITÉRIO DO PÈRE-LACHAISE


No Père-Lachaise a solidão é um útero de regresso,
os mármores têm a aparência de leite cansado,
a eternidade é uma toupeira que dá de mamar aos seus mortos.
No Père-Lachaise há crianças albinas a mascar hera,
os corvos entesouram puxadores caídos de portas que ninguém conhece,
soam mais amargos os violinos de Enescu debaixo dos salgueiros.
Junto a Jim Morrison alguns cravos de outros tempos
ainda elevam vapores e descargas eléctricas.
Oscar Wilde é só musgo a rebentar a pedra.
Às seis da tarde um funcionário tranca a morte,
abre a cigarreira. Sumido entre o fumo talvez pense:
Que trabalho inútil viver. Quanto tempo perdido.
Uma roseira deixou os espigões abertos sobre Sadeq Hadayat.
Sentados nos seus ciprestes os anjos levantam âncoras.
O cemitério zarpa novamente e Paris é o Inverno.


Jesús Jiménez Domínguez
in Criatura  n.º5, Outubro 2010

mardi 23 octobre 2012

José Miguel Silva...

 
 
... no Paralelo W.
 
 
 

RITOS
(Versão de um poema de Nicanor Parra)


De cada vez que regresso
Ao meu país
                         depois de uma longa viagem
O primeiro que faço
É perguntar pelos que morreram:
Qualquer homem é um herói
Pelo simples facto de morrer
E os heróis são os nossos mestres.

E em segundo lugar
                                     pelos feridos.
Só depois
                                     não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção de começos de século.


José Miguel Silva, Ulisses Já Não Mora Aqui
Lisboa: &Etc, 2002
 
[Via 50 KG]
 

lundi 22 octobre 2012

António Barahona lê...


 
... "Vírgulas de Sangue"
in Deitar a Língua de Fora, Lisboa: Língua Morta, 2012

Prémio Nacional de Poesia Diógenes - 2011

 
 
A cerimónia informal de atribuição do Prémio,
seguida de uma leitura de poemas de António Barahona
por Diogo Dória,
terá lugar no próximo sábado, dia 27 de Outubro, às 18h,
no Paralelo W.
 

dimanche 21 octobre 2012




O QUARTO AZUL E OUTROS POEMAS
Rui Caeiro / Ilustrações de Bárbara Assis Pacheco
Letra Livre, 2011


O MARTELO
Jorge Roque, Edição do Autor, 2012

samedi 20 octobre 2012

QUANDO EU SOUBE DA MORTE DO POETA MANUEL ANTÓNIO PINA


O dia já estava escuro
quando eu soube da morte do poeta
Manuel António Pina.

"Então isso faz-se?, perguntei,
incrédulo, ao escuro.

E acrescentei:
"Agora quem vai lembrar o nome do cão,
tactear as sombras dos livros,
aflorar o escândalo das nuvens
no céu?

Eu sei, o coração é um logro,
a beleza pura ilusão;
mas sem estas
e outras palavras, escuro,

como iluminar
cada segundo, cada promessa
inseparável da nossa vida?"

Então, caiu a noite.
E, significativamente,
o escuro optou por não me responder.



lundi 15 octobre 2012

dimanche 14 octobre 2012

Revistas no Paralelo W (3):

HOMENAGEM A 4 POETAS E 1 CINEASTA
 
 

Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
– foda-se! –
de morango.


Ana Paula Inácio
in Telhados de Vidro n.º11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008
 
 
 

mercredi 10 octobre 2012

Chegou hoje:

 
 
DO LADO DE FORA,
de José Carlos Soares
 
[50 Kg, 150 exs., 10 euros]
 

dimanche 7 octobre 2012






Edward Lear, LEARICKS
& etc, 2005
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me

AL BERTO



Manuel de Freitas, A NOITE DOS ESPELHOS
frenesi, 1998
Não se mexe uma folha.
O silêncio adormece.
E, dos ramos, em gotas, se desfolha.
Tudo espera não sei que milagre ou que sonho.



Francisco Bugalho, POESIA
LG, 1998





















Francisco Bugalho, POESIA 
LG, 1998

samedi 6 octobre 2012

Revistas no Paralelo (1):

   
   
   
 
ROBERT WALSER
   
    
    
 
De sapatos novos,
aí vai o sacristão,
como se resplandecesse o dia,
e o jardineiro
varre o caminho de saibro
como se alisasse
a memória,
mas não irão pôr ordem
no tempo antes do inverno,
lançam os iscos
ao ar e dizem
que os pássaros são peixes.
  
   
Regressas,
mais pesado,
às casas que nunca
partilharam contigo
uma infância,
     
     
na aldeia
ninguém te conhece
 
     
no olho
da betoneira
giram os céus
dilacerados.


Jürg Beeler
[Trad. João Barrento]
 

mercredi 3 octobre 2012