dimanche 13 juillet 2014

Domingologia (11)




Isabel Nogueira e Paulo Furtado, A Kind of Blue,
Lisboa: Alambique, 2014

lundi 7 juillet 2014

Novidade




Miguel Martins, Cotão,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: & etc, 2014

dimanche 6 juillet 2014

Averno 068




Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2014
[Tiragem única de 250 exemplares]

dimanche 8 juin 2014

Domingologia (10)


Houve em tempos, 2 séculos atrás, um muro chamado Muro do Derrete.
Que em 2 domingos consecutivos acontecia na feira das Mercês.
Quando não havia feira,  decerto nele poisariam pardais e dormitariam gatos.

[Continua aqui...]

dimanche 1 juin 2014

Domingologia (9)





A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
[Isabel Nogueira, 67, Rue Greneta
Lisboa: Artefacto, 2014]


Para apresentar este livro da Isabel, começaria por aquilo a que ela chama, logo no primeiro texto, a “pergunta inicial”: “E lá voltamos à pergunta inicial. Por que partimos? E foi neste ponto que os argumentos se esgotaram. À excepção de um. O mais importante: porque tem de ser.” (p.10) 
Se substituirmos o “partimos” por escrevemos, temos já aqui o princípio de uma espécie de poética: Por que escrevemos? Porque tem de ser. 


*


Este é o argumento “mais importante”, mas não o único. Há poucas semanas, na Culturgest, Rosa Maria Martelo apresentou uma comunicação intitulada “Devagar, a poesia”, em que identifica uma tendência que, a seu ver, marca a actual poesia portuguesa. Trata-se de uma aposta na desaceleração, na lentidão, por reacção à velocidade cada vez mais desumanizante dos nossos tempos. 
Parece-me que tal é visível, por exemplo, no bucolismo esclarecido de José Miguel Silva em Serém, 24 de Março (Averno, 2011); nos dois últimos livros de Adília Lopes, sintomaticamente intitulados Apanhar Ar (Assírio & Alvim, 2010) e Andar a Pé (Averno, 2013), por de certo modo proporem uma nova respiração, uma nova passada; ou ainda no muito recente Autocataclismos, de Alberto Pimenta (Pianola, 2014), em que um dos poemas nos apresenta mesmo um ciclista que cai e se volta a levantar para continuar caminho, não no “sentido único” de Benjamin (convocado no livro que agora apresentamos), mas – e cito – “no sentido contrário”. 

Creio, contudo, que também podemos identificar esta tendência fora da poesia, sobretudo em livros de carácter mais híbrido, como é o caso de 67, Rue Greneta. Esta desaceleração encontra-se presente, sobretudo, no modo como a Isabel, nos seus textos, cristaliza pequenos instantes de modo a permitir-se/-nos pensá-los, transformá-los em espera (aberta) e não apenas em acção (fechada). O mais importante – e isto fica dito logo desde o primeiro texto – não são as chegadas, mas as suspensões e a consequente transformação que estas deambulações permitem; um pouco como para Moosbrugger, uma personagem de Musil em O Homem Sem Qualidades, a liberdade era o trajecto repetido entre a prisão e o tribunal. Daí a referência a moradas muito precisas (a do próprio título); a um lugar certo na Biblioteca (o P29, título inclusivamente de um dos textos); ou a um local, por definição, de paragem, como o cemitério do Père-Lachaise, a propósito do qual se pode justamente ler: “Um belo cemitério é um excelente local para descansar enquanto vivo. E para ficar pasmado, que também é preciso.” (p.16)

Mesmo quando em andamento, a figura emblemática deste ritmo alternativo – desta quase inversão de marcha – é a do próprio flâneur, que Isabel recupera num dos seus textos e que também podemos encontrar, aplicada à criação literária, em Jean Cocteau. E cito, a este propósito, uma breve passagem do seu discurso de 1956, em Oxford: “Qualquer obra bela é escrita à mão e resulta de uma longa espera. Qualquer percurso belo na vida se faz a pé, ao ritmo de Goethe entre Weimar e Roma. Mas a pressa dá a volta às cabeças quentes. A juventude (…) cansa-se da estrada nacional. Desencoraja-se, ao ser ultrapassada por grandes carros que a salpicam de luz e de lama. Cede e pede esmola. Entrega-se à pantomina da boleia moral, que não é mais do que uma maneira desenvolta de estender a mão e de mendigar um pouco de velocidade e de luxo."1 

Uso, aliás, o termo andamento, pois este pertence também ao domínio da música e não é por acaso que, ao longo das páginas do livro da Isabel, vamos escutando Dead Can Dance, Beach House, tango, etc..


*


Um último aspecto que gostaria de destacar é o léxico positivo, quase solar, deste livro, em que os textos traçam justamente um arco do Outono à Primavera. Refiro-me a palavras como alegria, ternura, acreditar ou revelação (cf. p.38). 
Antes de mais, a revelação física das próprias imagens (fotografias anónimas) que compõem este livro. Mas também as revelações resultantes do diálogo que se estabelece entre essas imagens e os textos que as vão reenquadrando, recriando – na escrita da Isabel, como depois na escrita de quem as vê e lê, já despidas de uma identidade ou temporalidade mais específicas, abrindo-se assim uma série de passeios paralelos

Em tempo de profunda crise, que deixa naturalmente as suas marcas nestes textos, não é menos importante esta ressalva da alegria, feita por diversas vezes. Em tempo de obsceno apelo governamental à emigração, não é menos importante o pequeno gesto de resistência de terminar um livro, apelando, pelo contrário, ao regresso: “No fundo, todos esperamos chegar a casa, onde quer que seja, e encontrar sempre a chave debaixo do tapete.” (p.40)



Inês Dias
Lisboa, 31 de Maio de 2014



Tanta coisa por dizer, sel. e trad. Inês Dias, Lisboa: Língua Morta, 2012.